Chegou a hora da autocrítica da Globo

Chegou a hora da autocrítica da Globo

Leonardo Attuch é jornalista e editor-responsável pelo 247, além de colunista das revistas Istoé e Nordeste 11/09/2019 há 1 mês

A Globo demorou 49 anos para se desculpar pelo apoio ao golpe de 1964 e o fez quando já preparava o terreno para o golpe de 2016. O resultado, no entanto, foi inesperado e Jair Bolsonaro representa a maior ameaça à emissora, em toda a sua história, diz o jornalista Leonardo Attuch. Embora os colunistas da Globo estejam certos em denunciar o viés autoritário do bolsonarismo, a crítica fica incompleta sem a autocrítica de um grupo de comunicação que tem sido sinônimo de golpe no Brasil

No dia 31 de agosto de 2013, com 49 anos de atraso, o jornal O Globo publicou um de seus mais surpreendentes editoriais, em que reconhecia o erro por ter apoiado o golpe militar de 1964, que derrubou o presidente João Goulart e lançou o Brasil numa ditadura que durou 21 anos. Começava assim a confissão da Globo: 

Desde as manifestações de junho, um coro voltou às ruas: “A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura”. De fato, trata-se de uma verdade, e, também de fato, de uma verdade dura. Já há muitos anos, em discussões internas, as Organizações Globo reconhecem que, à luz da História, esse apoio foi um erro.

O que pouca gente imaginava é que, naquele momento, a Globo já tentava se apropriar das chamadas "jornadas de junho" para desferir um novo golpe contra a democracia brasielira – desta vez contra a presidente Dilma Rousseff, acusada – ora, vejam só – de "pedaladas fiscais". Com a campanha negativa liderada pela Globo, a primeira mulher presidente na história do Brasil, que dignificava o cargo, foi definitivamente afastada da presidência no dia 31 de agosto de 2016 – três anos após o editorial sobre 1964.

A Globo, no entanto, não se satisfez em derrubar Dilma. Era também preciso evitar a volta do PT ao poder, nas eleições de 2018. Por isso mesmo, a emissora colocou a faca no pescoço do Poder Judiciário para garantir a prisão ilegal do ex-presidente Lula a tempo de inabilitá-lo na Justiça Eleitoral. E quando ficou claro que mesmo assim o moderado professor universitário Fernando Haddad poderia vencer as eleições, a Globo tratou de embalar a narrativa de que ele e Jair Bolsonaro, miliciano cujas atividades o maior jornal do Rio de Janeiro jamais poderia desconhecer, representavam os dois extremos do espectro político.

Deu no que deu. Numa eleição fraudada, posto que sem Lula e sem debates em razão da ausência conveniente de Boslonaro, o neofascismo chegou ao poder. Não exatamente como a Globo queria. No 7 de setembro, Bolsonaro convocou para seu palanque os presidentes das três emissoras periféricas: Edir Macedo, da Record, Silvio Santos, do SBT, e Marcelo de Carvalho, da RedeTV. Além disso, o filho 03, que pode vir a ser embaixador em Washington, já faz lobby para que a empresa americana AT&T facilite a vida da CNN, potencial concorrente da Globo, no Brasil.

A Globo sabe que Jair Bolsonaro, resultado de seu discurso de ódio contra Dilma, Lula e o PT, representa a maior ameaça de toda a sua história. Talvez por isso, três dos principais colunistas da Globo – Miriam Leitão, Merval Pereira e Bernardo Mello Franco – estejam hoje alertando contra o viés autoritário de Bolsonaro – o que é um fato, diga-se de passagem. Miriam afirma que o golpismo do clã Bolsonaro não pode ser ignorado, Bernardo Mello Franco diz que Carluxo Bolsonaro diz o que o pai pensa quando ataca a democracia, e Merval Pereira chega a propor até a cassação do vereador. Tudo isso sem falar no recente "desabafo" do jornalista Guga Chacra, na Globonews, sobre os aspectos mais grotescos do bolsonarismo.

O Brasil, no entanto, não estaria vivendo este filme de terror se a Globo não tivesse dado sua contribuição decisiva para a destruição da democracia no país. É chegada a hora da autocrítica. E ela não pode esperar 49 anos.